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'Quero a tua vida'

‘Quero a tua vida’, dizia ela com os olhos.
Não eram olhos de inveja,
Tão pouco de raiva,
Eram apenas olhos que diziam,
Num misto de nostalgia e admiração,
‘Gostava de ter a tua vida’.
Queria ter 25 anos e sorrir ainda com os dentes todos,
Queria ter 25 anos e não ter ainda esta filha
- não que não goste dela, é claro que gosto,
qual é a mãe que no seu juízo perfeito não gosta da filha?
Mas queria ter 25 anos e ter o teu cabelo escovado e são,
Ter 25 anos e ter o teu estilo,
vestir bem,
usar as sandálias da moda em vez destas chinelas nojentas
onde as unhas se envergonham, encardidas
Desdenhar com um olhar cortante os rapazes que te lançam piropos em rosnares de cão com cio
Queria ter 25 anos e não ter ainda uma pirralha aos berros e aos saltos pelos bancos dos comboios, a incomodar as pessoas,
Não que não goste dela, é claro que gosto dela, afinal é minha filha
Mas queria ter 25 anos e não ter este homem
cujos avanços a outras raparigas finjo que não vejo
Cujos ruídos abafados no quarto ao lado, onde durmo com a miúda,
faço de conta que não ouço
Se calhar também gostavas de te deitar com a moça aqui do lado,
esta aqui mesmo ao lado,
aqui no comboio,
como eu gostava de ter 25 anos e não parecer um farrapo,
uma velha desdentada, acabada,
como eu gostava, por momentos, de voltar a ser só eu outra vez,
só por um momento,
contar só comigo
e fazer rosnar rapazes em piropos,
como eu gostava de ter 25 anos outra vez e não ter a minha vida.
Ter outra vida qualquer,
desde que não fosse a minha.
Desde que fosse outra.

 

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TODOS OS TEXTOS KATYA DELIMBEUF