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Hoje vou

Hoje vou perder o metro
para ficar a ler um bocadinho
Vou tirar a 5a e tentar andar em primeira
Vou abrandar o passo e controlar a batida cardíaca
Dizer-me que a ansiedade não ajuda
e dar graças por estar viva
Vou parar de rever mentalmente a lista de mil e uma obrigações que tenho de fazer
- e não pensar nisso
Vou desligar o telefone
e não me sentir mal com o facto de não querer ou não conseguir responder a todas as solicitações
Vou saborear uma refeição com calma
e prometer que amanhã tomo o pequeno-almoço até ao fim.
Que não acordo a pensar que já estou atrasada para não-sei-bem-o-quê
Vou trocar o hipermercado pela mercearia
Tentar esquecer que vivo numa cidade
E abstraír-me do barulho para ouvir o meu silêncio.
Vou deixar de tentar entender as pessoas que correm como se estivessem ligadas à ficha
Que acordam stressadas sem saber porquê,
‘Sabendo’ apenas que são supostas andar a correr
Vou sentar-me num banco na Av. da Liberdade,
cruzar os braços e não fazer absolutamente nada durante meia hora
Vou fazer aquilo que me apetece
Vou procurar um sítio ventoso e sentir a energia atravessar-me o corpo
Vou escrever esta crónica agora,
já,
ignorando os apelos para ir almoçar,
ver o telejornal,
Vou esquecer a gata que não pára de miar,
o garoto que não pára de berrar
Vou deixar de me irritar com a pilha do comando que não funciona,
apesar de já ter sido trocada não sei quantas vezes
Vou não ver o noticiário, que só conta histórias tristes,
De final infeliz
Não vou pensar na vida, no futuro,
nas contas, no dinheiro,
na carreira, no trabalho precário, na exploração,
no facto de viver num país de cunhas e de ‘amigos’,
onde o mérito é uma palavra bonita – e vã.
Vou deixar de fazer comparações com as vidas dos outros,
o sucesso que têm com a mesma idade
e a sua situação marital.
Vou admitir que se não sou feliz aqui,
talvez o problema não seja meu,
talvez queira só dizer que eu não quero viver aqui, assim.
E que se me apetecer ir embora para África,
não tenho de ser maluca nem idealista,
nem estar ‘a deitar pela janela tudo o que já conquistei’,
simplesmente talvez só me apeteça mudar
Vou-me sentar ao computador e escrever, não trabalhar

Vou parar de adiar.

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TODOS OS TEXTOS KATYA DELIMBEUF