|||||||||||||||||||||||||||||||||

FOTOGRAFIAS



Encontro à hora do teu nascimento

Maria Madalena fechou a porta do carro, junto ao campo de girassóis. As cabecitas amarelas, tombadas de lado, faziam a sesta, escarnecendo do pôr-do-sol. A professora de educação física rodou sobre si mesma, num ângulo de 90, ficando de frente para o milheiral. Tinha sido ali. Há um ano. Quando os girassóis apontavam para cima, vigiando a passagem, de debrum caído para trás em jeito de gola num vestido de cerimónia. Há um ano, deitados no capim, ela e Joshuah faziam um filho. Ele nunca chegaria a saber. Ela não sabia se se arrependia

Não é que Joshuah fosse mau tipo. Aliás, o carpinteiro demonstrara sempre muito jeito de mãos. Conhecera-o no festival de Paredes de Coura – ou na manifestação contra a guerra, já não sabia bem -, e a verdade é que dificilmente ele passaria despercebido. Era uma figura – um homem alto, de metro e oitenta e cinco, cabelo louro, revolto, pelos ombros, ‘facies’ anguloso e musculatura definida. Um belo homem, que pecava apenas pelo hábito, assaz frequente, de falar de si em excesso. A sua expressão preferida era «Não papo grupes», e pode dizer-se sem exagero que foi só passado algum tempo que Maria Madalena - Mia para as amigas – conseguiu descortinar o sentido da expressão. Queria dizer qualquer coisa como «Não faço concessões, não transijo nos meus princípios». De uma forma mais moderna, claro. Também utilizava outra: «Não há pão para malucos», mas essa, Mia não tinha conseguido deslindar.

No momento em que os olhos verdes de Maria Madalena esbarraram nos azuis de Joshuah, o mundo parou. Houve uma espécie de curto-circuito, de corrente eléctrica no corredor criado pelos dois olhares – e a faixa de terreno onde ambos se encontravam, frente a frente, tremeu. O resto do mundo continuava o seu percurso, animadamente, com música e barulho de feira. Mas naquela língua de terra, ocorria um terramoto de grau 8. Naquele instante, as placas tectónicas deslocavam-se – e era impossível os intervenientes não o terem sentido. Algo tinha de acontecer entre estas duas criaturas. Era inevitável.

Maria Madalena despertou do transe com um som de estalido nos ouvidos, o zumbido que se ouve depois de uma queda. A electricidade estática daquele momento repetia-se de cada vez que ela o recordava - tinha os pêlos dos braços todos eriçados. «Tenho de dar uma volta à minha vida», pensou, sacudindo as lembranças como um cão acossado pelas pulgas. Tirou os Florais de Bach da carteira, que a vidente lhe prescrevera, e depositou quatro gotas sobre a língua. Não sabia o que fazer. É verdade que já não suportava o barulho da cidade, o silvo estridente dos comboios, as conversas das pessoas nos transportes públicos. Por outro lado, não se podia queixar da sorte. Luna crescia saudavelmente, longe das maluqueiras do pai. Ela dava aulas de educação física numa escola em Beja, alimentando os sonhos molhados dos rapazes que não pediam licença para entrar na idade parva. E tinha encontrado paz nos braços de Peter Paulus, que havia adoptado a sua menina desde o primeiro dia.

Peter Paulus - PP para os amigos -, era um rockeiro romântico à procura de uma oportunidade no universo musical português. Mas triunfar em Beja não era um sonho fácil de concretizar, pelo que, nos entretantos, Peter Paulus tocava em casamentos e era inspector sanitário na lota de Casalinhos, ali ao pé. Ainda arranjava tempo para dar uma mãozinha como bombeiro voluntário em A-das-Loucas, uma vila com uma incidência anormalmente elevada de mulheres doentes dos nervos, à conta de actos dos maridos. Era, também, o distrito do país com maior taxa de crimes de sangue com uso de caçadeira.

Fisicamente, Peter Paulus não podia ser mais diferente do pai de Luna. Moreno de cabelo encaracolado, que lhe caía em grossos cachos até meio das costas, era conhecido como o ‘Slash alentejano’. Nutria uma admiração secreta por Gal Costa, idolatrava Iggy Pop, sonhava em ter o jogo de cintura de Madonna e não cessava de se espantar com a coordenação de Daniela Mercury e a sua capacidade de cantar sem ofegar, uma vez que fosse, ao mesmo tempo que pulava incessantemente, em elaboradas coreografias. Houve alturas em que, à conta das suas preferências musicais, os homens da terra lhe questionaram as tendências e os gostos. Peter nunca tivera dúvidas: era o verdadeiro macho latino – um lusitano, de puro sangue. Acolhera Maria Madalena de braços abertos e assumiu o papel protector que se esperava dele.

Mas havia, naquela vidinha pacata, algo de profundamente enfadonho e de profundamente diferente em relação ao que Mia sonhara para si. Maria Madalena sempre quisera ser missionária. Ir para África ajudar os meninos que morrem de fome, fazer o bem e, de caminho, se possível, assistir a espectaculares pôres-do sol. Tivera um vislumbre dessa vida com Joshuah – mas havia nele algo que a assustava. Era hiper-sensitivo, sentia as coisas antes delas acontecerem. De vez em quando, uma névoa toldava-lhe o olhar e julgava-se capaz de andar sobre a água, devolver o andar a um paralítico ou transformar água em vinho. Outras vezes, pedia-lhe que fosse colher cogumelos e dava grandes festas para os amigos, onde riam muito em torno de uma fogueira e dançavam ao som de uma música hipnótica com nome de penteado feminino - ‘trança’, seria?

Maria Madalena questionara-se frequentemente sobre o conteúdo, de agradável fragrância, dos invólucros que Joshuah e a sua dúzia de amigos levavam à boca - mas ele sossegava-a, explicando-lhe que só assim era possível pregar o amor num mundo povoado de ódios. O pior foi um dia em que Joshuah desmontou do cavalo e disse: «Vou fundar um partido, alicerçado nos valores da justiça social e da distribuição de riqueza para os pobres e oprimidos». Até já tinha pensado num nome: «Cruzes canhoto», uma junção do símbolo que lhe surgia muitas vezes em sonhos, nomeadamente quando tinha dores nas costas, e os valores com que se identificava. A esquerda, o lado do coração.

A partir daí, foi o descalabro. Comícios todas as noites, cada vez mais gente que vinha de cada vez mais longe – entre as quais fogosas raparigas que levantavam as camisas e puxavam os cabelos sempre que Joshuah abria a boca - às vezes, até antes... Mia, que não era um animal de sangue frio, não achava graça à brincadeira. Pelo meio, ainda ouviu uns quantos discursos do ‘marido’, mas por mais que se esforçasse, não conseguia perceber o que é que conceitos filosóficos e políticos como «o fim da propriedade privada», «anarquia», ou «paz e amor» tinham a ver com hordas de rapazes e raparigas de fitas na cabeça que acabavam invariavelmente a noite numa pilha humana. Talvez não se esforçasse o suficiente. E veio-lhe à cabeça a imagem da mãe, que sempre lhe dissera que Deus não podia distribuír irmãmente beleza e inteligência.

Depois, havia ainda os concertos, e as Festas do Avanço, que impediam Mia de dormir até altas horas da madrugada. Recordava-se particularmente de um cantor moreno de baixa estatura, de ‘T-shirt’ vermelha, que parecia falar em vez de cantar. O resultado não era desagradável, e, na verdade, as letras coadunavam-se perfeitamente com o que Joshuah dizia nos seus discursos. «Paz, pão, saúde, educação...!» Lembrava-se também de outro cantor com uma bóina, e ainda de um episódio engraçado que ocorrera com uma banda infiltrada. A letra era extraordinariamente parecida - pelo menos, aos ouvidos de Maria Madalena -, mas descobriu-se mais tarde que a letra «Paz, pão, pátria e liberdade» pertencia a um hino de um partido da concorrência, um tal de PSD.

Mas Mia enganara-se ao presumir que isto era o pior. O pior foi mesmo quando chegaram os italianos. Uns homens de sotaque estranho, com cabelos empastados de gel, fardas desenhadas por um tal de Armani e capacetes de plumas vermelhas. Intitulavam-se carabineiros. Uma noite, acordou com tochas dentro de casa. Os italianos haviam entrado na aldeia, lançando fogo e matando tudo o que encontravam no seu caminho. Estremunhado, Joshuah pegara no seu cajado e distribuía golpes imaginários no ar. Antes que conseguisse perceber o que se passava, alguém pegara nela e, tapando-lhe a boca com a mão, arrastava-a com violência dali para fora. Recorda-se de olhar para Joshuah e ouvi-lo dizer ‘a taça, a taça’ – e lembra-se de ter ficado zangada, achando que não era o momento para pensar em vinho. Depois, ficou tudo turvo. O resto era uma folha em branco.

Quando voltou a si, Mia estava num estábulo, com um homem que não conhecia. A princípio assustou-se, mas ele tratou de a sossegar. Contou-lhe como a tinha encontrado, arrastada por um carabineiro, e como o eliminara, com uma paulada na cabeça. Peter Paulus havia sido a sua salvação. Deixara-a esconder-se, no estábulo do seu monte em Beja. Foi nesse estábulo, graças ao calor do bafo de uma vaca, um boi e uma ovelha, que Mia suportou o frio das noites alentejanas. Só passados uns meses percebeu que estava grávida. E, de novo deitada nas palhas, deu à luz - uma menina. Como a última coisa que vira antes do parto fora a estrela polar, deu-lhe o nome de Luna. Nos braços firmes - e tatuados - de Peter Paulus, Maria Madalena encontrara o aconchego.

Maria Madalena tinha umas pernas longuíssimas, capazes de ombrear com qualquer protagonista de Margarida Rebelo Pinto, o que lhe valia a alcunha de «perna-longa» desde os tempos do colégio, e ostentava uma longa cabeleira «laranja cor de fogo» - pelo menos, era o que garantia a embalagem de coloração que comprara no supermercado. Há já algum tempo que se habituara a pintar o cabelo consoante as estações do ano, o que a fazia sentir-se em comunhão com a natureza. Era também, suponho, uma forma de camuflagem. De algum modo, Mia escondia-se. De Joshuah, dos carabineiros. Era, também, achava ela, uma espécie de serviço público que prestava à população. Bastava olhar para ela para saber em que estação do ano estávamos. Era, portanto, outono - no Verão, Maria Madalena era loura, no inverno, tornava-se morena, e na primavera tinha o cabelo rosa cor de malva.

Maria Madalena recordou as palavras da vidente. ‘Iria reencontrar Joshuah e cumprir o seu destino. E depois, encetaria com ele uma busca maior do que a própria vida’. Aquelas palavras intrigavam-na particularmente. O que quereria ela dizer? Teria que ver com Luna? Nem por um instante Mia pôs em causa a palavra da pitonisa. Afinal, era a ela que devia o nome. A sua reputação de vidente era conhecida aquém e além fronteiras. A gata Leika havia sido a primeira felina a pisar superfície lunar. À conta disso, desenvolvera capacidades mediúnicas impressionantes – factor exponenciado por uma queda que dera em pequena num poço de urânio enriquecido. Isto conferia-lhe um halo de luz, o que, para a maioria, era a validação da sua santidade. Manifestava-se por miados – e daí o nome que Mia herdara -, que um filósofo marroquino de nome Tibério traduzia em palavras. Pouco se sabia dele, excepto que tinha o hábito de guardar (quase) tudo, e por isso tinha a casa cheia de pilhas de papéis que atingiam o meio metro de altura: envelopes, invólucros de talheres de cantina e uma camada de pó onde escrevia recados à empregada, uma vetusta senhora de 90 anos com a energia de uma mulher de meia-idade - sem os acessos de calores da menopausa, entenda-se.

Mia acordou dos seus pensamentos e decidiu sacudir o tédio para um cibercafé. Entrou num ‘chat-room’ com o ‘nickname’ que usava já há uns tempos, numa semi-homenagem à sua inspiradora: kat-on-mars. Naquele dia não lhe apetecia fazer conversa, por isso procurou um tema de maior interesse. Abriu uma janela onde se falava de bem-estar, de equilíbrio interior, de fé e de sonho, e encetou um diálogo com uma pessoa que dava pelo nome de ‘Messias’. O discurso dele chamou-lhe a atenção por uma razão qualquer que não sabia verbalizar – um calor, uma cadência na escrita... O mais estranho é que ele parecia saber quem ela era. Não sabia explicar porquê, mas havia ali uma familiaridade. Falava-se de muitas coisas naquele ‘chat’, algumas que escapavam à compreensão de Mia: rosa-cruzes, templos, templários, cavaleiros, buscas, escavações, cálice, taça, ‘copo de três’ e até Indiana Jones... Era confuso... Passado uns minutos de estar online, o Messias convidou Mia para uma conversa em privado. Queria marcar um encontro, mas teriam de escrever em código, por causa do ‘Webmaster’, explicou ele. Apesar de não saber de quem se tratava, Mia acedeu. «Encontra-me Sexta-feira nos Templários, na grande alface, à hora do teu dia de nascimento. Traz uma flor da cor do teu cabelo a saír da mala.» Log out.

Mia ficou a olhar para o ecrã branco, embasbacada. «Nos Templários, na grande alface, à hora do teu dia de nascimento?» Seria este ‘Messias’ bom da cabeça? Por momentos teve medo, lembrou-se das histórias que se contavam sobre encontros às cegas que acabavam com ‘serial killers’ e neuróticos que mentiam sobre a sua identidade. Depois... franziu o sobrolho e começou a pensar. Tinha de ser alguém que a conhecesse. Alguém que soubesse a que dia fazia anos, pelo menos. Mas como teria ultrapassado a barreira do ‘nickname’? Pelo sim, pelo não, decidiu fazer uma pesquisa por termos, começando com a palavra ‘Templários’. 41 100 resultados. A noite prometia ser longa.

Às três da manhã, com o cibercafé já fechado e Mia lá dentro por especial favor, um dos resultados chamou-lhe a atenção: Bar ‘Os Templários’, Av. EUA, Lisboa. Tinha lá estado uma vez, com Joshuah e recordava-se vagamente de umas armaduras
a servir de decoração. «A grande alface...» Seria isso? Lisboa, a capital alfacinha? Mia sentiu que era aquilo. Às 21h 09 de sexta-feira, nos Templários, em Lisboa. Lá estaria, com uma geribéria laranja a saír da mala. Que diria a Peter Paulus? Iria mentir? Mia estava dividida. Mas algo mais forte a impelia numa das direcções.

Eram 21:07 de Sexta-feira 13 e Mia agitava-se nervosamente dentro do carro estacionado em frente aos Templários, na Av. EUA, em Lisboa. Era chegada a altura. O que a esperaria lá dentro? Quem estaria lá dentro? Não se estaria ela a expor demasiado? A correr riscos desnecessários? A curiosidade falou mais alto e Mia resolveu entrar. A maioria das mesas estava ocupada, e Mia varreu a sala com o olhar, à procura de algum ponto que lhe despertasse a atenção. Fê-lo uma, duas vezes, e nada lhe parecia familiar. Começava a parecer conspícuo, aquela mulher vistosa, de pé, no meio da sala, quando alguém lhe agarrou no braço e disse: «Confia em mim». Mia abafou um pequeno grito, misto de surpresa e susto. O homem era alto, usava boné, óculos escuros e roupa andrajosa, a condizer com a longa barba e cabelo louro. A bem dizer, parecia um sem-abrigo – não fosse a ausência de mau cheiro e o facto de a entrada lhe ter sido permitida. Mas aquela voz não deixava dúvidas: por trás do disfarce, estava Joshuah.

Mia tentou controlar-se e acalmar o batimento cardíaco, que praticamente não a deixava falar. Como que adivinhando, era Joshuah que fazia as expensas da conversa. «Tenho de ser breve», disse. «Estamos a ser vigiados, por isso dar-te-ei aquilo que não te posso dizer. O guardanapo que vou deixar em cima da mesa contém uma mensagem. Está encriptada, para que não te prejudique, caso caia em mãos erradas. Lê-a e faz o que ela disser». Houve uma pausa, após o que Joshuah perguntou, olhando-a bem no fundo dos olhos, como a querer mirar-lhe a alma: «Onde raio te meteste este tempo todo? Andei louco à tua procura...» Mia esboçou uma resposta, mas saiu-lhe uma espécie de grunhido, ao abrir a boca. Parecia afónica. Quando se sentiu capaz de dizer algo, houve uma rápida troca de olhares entre Joshuah e o porteiro, seguido de um assentimento de cabeça. Nesse segundo, levantou-se e disse «Tenho de ir», no mesmo instante em que Mia conseguira finalmente balbuciar: «Temos uma... filha». Já só o viu partir, como uma sombra, pela porta das traseiras. Ao mesmo tempo, alguém pegava bruscamente nela e encaminhava-a para um sítio escuro. «Onde é que eu já vi este filme?», pensou Maria Madalena, pedindo encarecidamente à Providência que não fossem, de novo, os malditos carabineiros.

No mesmo minuto, a porta do bar escancarou-se e alguém gritou: «Polícia de Deus! Todos no chão!» Sons de gritos abafados, de surpresa e medo, varreram a sala. Os olhos de Mia habituaram-se à escuridão, e viu um pequeno buraquinho que permitia ver o que se passava. Devia estar por trás de uma parede, numa passagem secreta do bar. Eram os carabineiros. De sabres desembaínhados, pareciam procurar alguém em particular. «Não está aqui!», gritou um deles furioso, depois passar o bar a pente fino, virando uma mesa com um pontapé. Maria Madalena ouviu o barulho de pneus a chiar lá fora, seguido do som de aceleração. Foi como se um mestre de hipnotismo tivesse estalado os dedos, dando o sinal para acordar: todos os carabineiros precipitaram-se para a porta, atravessando-a. Segundos mais tarde, começava a perseguição.

Já instalada no conforto do seu carro, com o coração em alvoroço, Mia desdobrou o guardanapo que pusera precipitadamente no bolso. Dizia: «Ruma ao ninho do campeão eterno, na torre onde a princesa está guardada. À hora do dia da perfeição: duas vezes primeiro, uma depois. Saberás seguir os sinais. P.S: Não me esqueço de te lembrar». Santo Cristo, pensou Maria Madalena. Eu ainda amo este gajo. E de que maneira... Mas aquela mensagem ia dar-lhe água pela barba...

«Ok... Vamos por partes», pensou Mia para consigo. E sublinhou as palavras chave: ‘Ninho do campeão eterno’, ‘torre, princesa, guardada’. As palavras lembravam-lhe a história da Bela Adormecida, aprisionada no alto de uma torre guardada por um dragão, que o príncipe tinha de matar para chegar até ela. Que havia ali de novo? Dragão, talvez. ‘Campeão Eterno’, Dragão... Seria possível? Um vislumbre de claridade começou a tomar forma na cabeça de Maria Madalena, até que... Não podia ser... Referências futebolísticas? Joshuah sabia perfeitamente que Mia não ligava nenhuma a futebol, não sabia nada do assunto. Mas por outro lado, não era preciso ser-se um profundo conhecedor para saber que era o Porto que ganhava sempre.... ‘O campeão Eterno’ era o FCP, e o ninho o ‘estádio do dragão’... Tinha de ser isso! Quanto às referências horárias, a tarefa era mais fácil: o dia da perfeição era o 7, duas vezes 7 eram 14, uma vez, 7. 14h 07. Assim seria.

À porta do estádio do Futebol Clube do Porto, na Cidade Invicta, Mia olhava para a linha do horizonte. Perscrutava as possibilidades. Uma torre, uma torre... Não podia ser ali. Teriam de ser os escritórios do clube, arriscou. Aí, haveria certamente torres... Não se enganou. A poucos metros do estádio, um enorme edifício espelhado erguia-se em direcção ao céu, onde as nuvens se vinham reflectir. Entrou no ‘hall’ e chegou ao elevador, ludibriando a segurança. Havia 10 torres, de A a J. Confiou no instinto e carregou no último andar: J, de Joshuah. Dez segundos mais tarde, as portas abriram-se e viu filas e filas de carros. Estava no parque de estacionamento. Como é que iria descobrir o local exacto? Recordou a frase de Joshuah: «Saberás seguir os sinais».

Decidiu adoptar um método, para não se perder. Veria os carro fila por fila, um por um, da esquerda para a direita. A tarefa afigurava-se titânica. Foi prestando atenção às cores, aos modelos, mas não lhe parecia ser isso... Concentrou-se então nas matrículas. Tinha passado talvez uma boa meia hora quando Mia estacou à frente de um dois cavalos. Matrícula? MM-14-07. As iniciais de Maria madalena, à hora combinada. Tinha de ser este. Nesse momento, Joshuah surgiu por trás e pousou-lhe uma mão no ombro. «Eu sabia que irias chegar até aqui». O reencontro entre os dois foi emocionante. A magia do seu relacionamento continuava lá. Mia contou a Joshuah da existência de Luna. Joshuah chorou. Agora que tinha tempo, explicou a Mia o que andara a fazer este tempo todo. ‘A revolução nas ruas’, como lhe chamava, tinha conseguido recrutar centenas de militantes, na sua maioria sem-abrigo - marginais da sociedade, que não se reviam no sistema. Joshuah explicara-lhes a ideologia do PRCC – Partido Revolucionário Cruzes Canhoto, e tinha agora suficientes assinaturas (dentre os que sabiam escrever e assinar) para se candidatar às próximas eleições. Era isto que os carabineiros queriam evitar: que espalhasse a mensagem pelo mundo, para que este continuasse em guerra, entregue aos interesses e às ambições, à ignorância e à corrupção.

«E o que estamos nós a fazer aqui, em frente a este carro?», perguntou Mia. O semblante de Joshuah ficou sério de repente. Dirigiu-se à bagageira do carro. Escondida por baixo do tapete, estava uma caixa de madeira embrulhada em papel reciclado. «Cabe-te a ti abri-la», disse Joshuah para Maria Madalena. Para que este seja o século das mulheres, e venha coroado de sensibilidade e bom-senso, não de guerras adolescentes». Mia abriu a caixa, com mãos trémulas. Lá dentro, uma lápide trazia gravadas 7 frases - os Sete Mandamentos para um Mundo Melhor (MMM). Paz, Amor, Respeito, Liberdade, Solidariedade, Aprendizagem, Tolerância. Nada disto era novo. Mas tantos eram os que precisavam de ser relembrados. Seria esta a Mensagem do ‘Messias’ - na igreja, no parlamento ou num descampado.

Na caixa, havia ainda um cálice – melhor dizendo, um copo, um vulgar ‘copo de três’, um copo de tasca, daqueles habituados a servir vinho a corpos castigados pelo trabalho e mentes cansadas da vida. Mia pegou-lhe e o cálice começou a brilhar. Saberia mais tarde, ao ver o Telejornal, que naquele momento, às 21h09 do dia 21 de Setembro de 2004, todos os ‘copos de três’ e as garrafas de álcool de tascas, bares e estabelecimentos comerciais do Reino de Portugal e dos Algarves tinham explodido ao mesmo tempo, num estranho fenómeno que ninguém sabia explicar. Os bêbedos levantaram-se das sarjetas onde estavam caídos, as suas faces perderam o rubor, os seus olhos abriram-se, e o alcoolismo foi erradicado do planeta naquele instante. Os outros vícios, cabia ao homem erradicá-los, caso quisesse. Um novo mundo era possível. Uma mão cheia de possibilidades.

Maria Madalena casou três vezes e teve três filhos - todos de Joshuah. Da primeira vez, casaram pela igreja. Da segunda, escolherem o cimo de uma montanha, e da terceira vez, aproveitaram uma viagem a Las Vegas para casar numa ‘Love Chapel’, daquelas onde os casais fazem fila à espera que o padre dê vazão aos vinte da frente. Peter Paulus foi descoberto por um ‘scouter’ americano a passar férias em Porto Covo e emigrou para os EUA, onde trabalhava como duplo do seu homónimo, Slash. Leika, a vidente, foi entronizada Raínha do Sabá por uma seita egípcia que a adorava. Como condições, exigiu um harém de sete gatos (e igual número de subalternos) e um carregamento de 50 kg de Whiskas. Requisitou ainda uma companhia de ballet privativa, com ratos cegos bailarinos. Gostava do prazer sádico de lhes puxar a cauda e de os comer um por um enquanto dançavam e chocavam em palco, sem se aperceberem das falhas na coreografia. Mia e Joshuah construíram uma casa na árvore, para que ele pudesse estar mais perto de Deus. Cultivaram uma plantação de ervas aromáticas, que utilizavam com frequência, para efeitos culinários e afins. Aliás, jura quem conviveu de perto com ele que foi com o som nasalado de quem trava um cigarro que, erguendo os dedos em sinal de vitória, pronunciou a sua última palavra, por entre uma baforada: «Peace...» Ainda hoje, há quem jure que Deus é um sem-abrigo, na cruzada das ruas à noite.

P. S: E, claro, viveram todos felizes para sempre.

|||||||||||||||||||||||||||||||||

FOTOGRAFIAS

|||||||||||||||||||||||||||||||||


TEXTO KATYA DELIMBEUF / PLÁTANO EDITORA